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“FIDJO DI GUINÉ OSSA MORTU I MEDI BARDADE”: DISPARATE | Gaznot.com
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“FIDJO DI GUINÉ OSSA MORTU I MEDI BARDADE”: DISPARATE - 08-04-2010


Article posté le 08-04-2010

Assim diz o povo guineense sobre si mesmo: “Filho da Guiné ousa a morte e teme a verdade”. Ainda assim é.


 

Consta que, na fatídica noite de 20 de Janeiro de 1973, já alvejado, Amilcar Cabral ainda lembrou aos seus algozes que, “… se há algum problema temos o nosso Partido para discutirmos…”. Quando o disse, já tinham decorrido da sua parte 17 anos no mínimo, de um trabalho mais que árduo para instalar entre os seus correligionários a cultura do diálogo como via privilegiada para a resolução pacífica dos problemas, se tomarmos como balizas os anos de 1956 e 1973.

A chacina que a isso se seguiu, alegadamente consequente de inquérito à morte de Cabral trouxe mais que ao de cima a crua e nua verdade de que nada tínhamos compreendido do mais profundo e querido do pensamento e sentimentos de Cabral: “ O homem é o ser supremo do universo” e  “…a Luta visa a criação de um homem novo…”. Se de algum modo se possa compreender alguma execução de pessoas num teatro de guerra, num Estado que se pretende de direito democrático, que tem plasmada na sua Constituição a interdição da pena de morte, nada permite a mera possibilidade dessa compreensão e é impossível admitir que por trás disso esteja o “Homem novo” idealizado por Amílcar.

Desse Janeiro, a 14 de Novembro, particularmente de 1976 a essa data de 1980, dezenas de compatriotas voltaram a ser eliminados (Comandos Africanos e oponentes políticos), traduzindo-se isso numa macabra confirmação de que nada tínhamos compreendido do valor da vida humana e de outros recursos para a solução de problemas. No 14 de Novembro, o golpe apadrinhado por um dito “Conselho da Revolução”, foi baptizado com o nome de “Movimento Reajustador”.

Quando se deu a conhecer os seus membros, o nosso saudoso e estimado amigo Jorge Ampa me disse: “Isto não vai dar nada. São os mesmos”. Triste mas lapidar.

Salvo os casos do Otto Schat e Buscardine, não se conhece registo de mais outra vítima do golpe militar ocorrido nessa noite, graças a Deus. Mas outro tipo de eliminação sucedeu e de consequências igualmente criminosas, se disso não entendermos apenas a eliminação física de alguém. A meu ver, esse golpe eliminou uma parte mais que importante da direcção histórica da Luta de Libertação Nacional, entre quadros militares e políticos, guineenses, sem falar do afastamento da ala cabo-verdiana. Quem se der ao trabalho de rever esse momento da nossa história dar-se-á conta que os quadros a que me refiro, foram dezenas, para não dizer centenas. Assim criado todo um amplo espaço na esfera do poder, abriu-se caminho a uma luta atroz para o ocupar, protagonizada essencialmente por gente que no poder, apenas vê mordomias, imunidade e impunidade para saciar as suas misérias como bem entender; que não sabe o que é e para que é o poder do Estado. A partir dai, é principalmente desse grupo de gente onde os decisores vão recrutar gente para todos os cargos, banalizando-se assim ao extremo os cargos públicos. Numa outra perspectiva, esse recrutamento não podia/pode ser noutro grupo, pois que não havia/há lugares que cheguem para tantos protagonistas, potenciais executores de chefes que falham na distribuição de tachos. Compreendido assim o acesso ao controlo e usufruto dos magros recursos do país para proveito próprio, nada a estranhar: cada franja de medíocres que um golpe não conseguisse satisfazer, só tinha que se organizar e esperar a sua vez para golpear e ocupar o poleiro. Para nossa desgraça, como se não bastasse a má qualidade dos recrutados, a ela se junta a dos chefes, que até acreditam que brilhar entre medíocres é façanha que merece aplauso. Por e para isso, na sua enturage, preferem alguns letrados que em troca de um cargo governamental, nomeadamente, aceitam até trair-se a si mesmos. Bem vistas as coisas, essa gente é mais responsável pela nossa desgraça do que os operacionais. Porque dotados de maior capacidade para entender e bem agir, mas preferem a postura de conscientes cúmplices, porque contrariar o chefe significa perder a tigela, vivem à quem da dignidade. Assim sendo, não pode haver dignidade no exercício de altos cargos públicos, ou seja, a observação da legalidade e princípios ético-morais. Os horrendos assassinatos decorrentes do “caso 17 de Outubro”, não foram da responsabilidade só do “Chefe”.

O seu aproveitamento até à exaustão para a prossecução de estratégias, virtualmente politicas, impregnadas de retrógrados e mal disfarçados traços de tribalismo, também não é obra só do “Chefe”. Sob o comando da mediocridade, avançamos cegamente até ao precipício do qual ainda não conseguimos sair desde 7 de Junho de 1998. Esse conflito sucede e em tais moldes, porque a mediocridade dominante esvaziou o país de Estado, ou seja, tornou a Guiné-Bissau terra sem Estado.

O mero facto da então Chefia do Estado ter recorrido a exércitos estrangeiros para combater uma parte do que formalmente eram as forças armadas sob o seu comando supremo, revela o grau de falência de Estado em que o país vivia. Se ainda hoje uns admitem que há ausência de Estado, outros, que o que há é um Estado falhado e alguns, que o nosso é um “narco-Estado”, como não compreender a inevitabilidade, dos “disparates” sucedidos, até o do dia das mentiras?

Como todos os “disparates”que já nos fizeram viver são considerados “casos” ou deles consequentes, o ultimo é de consequência imediata do “caso Bubo Na-Tchuto”. Bastaria dizer que a questão foi mal conduzida e sucedeu o feitiço contra o feiticeiro. Mas não. Importa referir alguns factos para se compreender a má condução. Quando se especulou quanto ao envolvimento do Bubo numa tentativa de Golpe de Estado e foi colocado sob detenção, o Almirante saiu (reparem que não digo fugiu) do país quando e como quis.

No regresso, entrou quando e como quis e foi-se entregar às Nações Unidas, num dos maiores e melhor guardados edifícios de Bissau, situado nas barbas do quartel da Marinha de Guerra, de que era Chefe de Estado Maior.

Meus Senhores, será que tudo isso não deu para entender que não se estava face a um “desertor” qualquer que se podia prender ou tratar de qualquer maneira, sem que disso adviessem consequências negativas? Se se tinha conseguido um acordo em que as partes, por sinal, até deram um enquadramento equilibrado e civilizado ao caso, porque é que não se preferiu o seu cumprimento, em vez da reiterada prepotência de afirmar que se transpuser o portão do edifício das Nações Unidas será preso e entregue ao tribunal, mesmo sem que se conheça nenhuma acusação formal contra ele? Ensina a historia que, mesmo que se trate de um inimigo num campo de batalha, nunca se o deve encurralar ou encostar à parede sem hipótese de saída, sob pena de se o obrigar a tudo para se salvar. Estou convencido de que este erro foi decisivo para o despoletar do “disparate”.

Por outro lado julgo que se deve ter em conta que o pagamento de salários a tempo e horas, todos os meses, atrair investimentos, construir e mais outros feitos, só por si, não constituem factor essencial de estabilidade e harmonia nas relações institucionais. Alías, provas disso abundam.

Há dezenas de países com governações mais que aplaudidas pela comunidade internacional pelos resultados alcançados, mas que conheceram “disparates” como as que ciclicamente conhecemos. Para mim, um governante ou Governo que queira fazer com que o seu país tenha um futuro de paz e desenvolvimento terá muito a ganhar se respeitar o que considera o pintor Argentino,  Xul  Solari: "sem invenção não há futuro possível”. Profundo e belo.

Sem gente criativa, capaz de inventar soluções, é impossível não comprometer o futuro de paz e progresso que todos merecemos. Felizmente até nem temos muito que inventar. Basta estudarmos as experiencias de reconciliação nacional que estão a decorrer com sucesso, na África do Sul, Moçambique, Angola e Rwanda. O que se passou em cada um desses países, estou em crer que foi muito mais grave do que estamos a viver. Aí, estão a conseguir sucessos porque têm Estado e é coisa muito seria por lá, para não se admitir acesso aos seus órgãos de soberania, principalmente, a toda a gente, ou a partir de critérios clientelistas ou nepotistas. Quem quiser tirar duvidas que observe o nível dos membros dos nossos órgãos de soberania e os dos países citados.

Nesses países, o grau de auto-estima é de tal maneira elevado, que de modo algum se deixam ver como párias da comunidade internacional, comportando-se como membros de pleno direito e activos dessa comunidade. Antes dos aplausos da comunidade internacional, os dirigentes desses países lutam primeiro pelos aplausos da comunidade nacional, resolvendo os reais problemas nacionais de forma organizada, inteligente, solidária e patriótica.

A forma como o Presidente da Republica está a tratar deste colossal “disparate”, oferece-nos a esperança de que se instale e venha a consolidar uma nova cultura de chefia de Estado no nosso país.

Quando um homem não consegue compreender e perdoar, é estimulado pelo ódio, faz disparates e cai na desgraça. Quando um dirigente político não sabe compreender e perdoar, nem chega a ter graça para cair na desgraça. Considerar esta gravíssima crise um mero “incidente”, sanado com um absurdo pedido de “desculpa”, mantendo uma das suas partes detida em Mansoa, faz-nos lembrar aquela do gato que lambeu nata. Assim estamos.

Só não conseguimos erguer até hoje um Estado a sério na nossa terra, porque os nossos engenheiros políticos persistem nos mesmos erros, porque não conseguem entender bem o projecto do principal Arquitecto da nossa independência e Estado, Amilcar Cabral. Se de facto queremos que haja um Estado capaz e forte na Guiné-Bissau, onde deixarão de ter lugar “disparates” de “mal-tomados”, assumamos com determinação este pensamento inspirador e orientador do Engenheiro Maior-Amilcar Cabral.

Em 1966, disse:

Alguns pensam: «se temos que mandar, então vamos mandar, nem que não saibamos mandar nada, só para fingir que toda a gente é que manda». Isso é asneira. Há muito tempo que eu disse que, se não é preciso ser doutor para mandar no nosso Partido, não podemos esquecer que há certos trabalhos que quem não sabe ler nem escrever não pode fazer; senão, estamos a enganar-nos, e nós não temos nada que nos enganar. Há certos trabalhos que, conforme o nível de instrução, assim se podem ou não fazer”.

Ernesto Dabo

 

 

 

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