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Estatística: Abecedário e tabuada do mundo moderno | Gaznot.com
Reflexão
Estatística: Abecedário e tabuada do mundo moderno - 26-08-2016


Article posté le 26-08-2016

A primeira preocupação da Escola é ensinar a ler e a contar, confrontando as crianças desde logo com a convivência com as letras e os números, competências básicas de contacto com duas formas elementares de apreensão da realidade que nos rodeia.
No passado essas competências quase bastavam por si, mas hoje já não é assim. O mundo mudou, sofreu alterações profundas e rápidas nas últimas décadas. A evolução tecnológica reduziu distâncias e a informação transformou-se no bem menos escasso da actualidade.

O aumento exponencial dos zettabytes disponíveis no mundo exige que cada vez mais possamos utilizar medidas que sintetizem grandes quantidades de informação e permitam a comparação da complexidade das realidades no tempo e entre territórios.
Entre os vários tipos de números que povoam o nosso quotidiano os Dados Estatísticos ocupam um lugar de relevo. São números, mas números muito especiais, em que o conteúdo social está presente; diferentes, portanto, dos que normalmente usamos quando fazemos cálculos matemáticos ou de estatística aplicada nas actividades de investigação em áreas científicas particulares.

São números que medem as características das múltiplas variáveis do sistema económico, social ou cultural, desde as exportações de determinados produtos ao número de visitas às salas de cinema, desde o número de filhos que temos, à percentagem do Produto Interno Bruto investida na Educação. Esses números reflectem pessoas e os seus comportamentos ou decisões, mas também a vida e a dinâmica mais global das Sociedades; é a esses números que me passarei a referir a propósito da capacidade que temos de os apreender, ou seja, da Literacia Estatística.
Então, sendo a informação estatística oficial sobre a Sociedade muito útil, a sua melhor utilização por um cada vez maior número de cidadãos é um objectivo óbvio, o qual ainda está longe de ser plenamente sucedido na maioria dos países.
Mas a aversão primária aos números de muitas pessoas não é tão real como alguns ainda afirmam.
Por exemplo, quem não faz contas às suas despesas e ao dinheiro que tem disponível? Quem não gosta de saber a probabilidade de chuva no dia seguinte para decidir se leva ou não o guarda-chuva? Quem não se interessa por conhecer os níveis de emprego e de desemprego e a inflação do país?
Há quem argumente como motivo da Iliteracia Estatística a ?má fama? da Matemática, fruto de muitos anos de deficiente preparação e de ausência de motivação para a disciplina, ou que a informação estatística está ligada a competências na área da Matemática. Trata-se de um equívoco. A compreensão dos dados estatísticos não necessita de conhecimentos aprofundados de Matemática.

É ainda habitual denegrir os ?números? estatísticos, atribuindo-lhes diversos malefícios, como a incapacidade de através deles se conseguir apreender a verdadeira profundidade dos nossos objectos de estudo, apenas supostamente acessíveis através de uma abordagem qualitativa, ou ainda a capacidade dos ?números mentirem?.
Trata-se de um outro equívoco, com os mesmos efeitos indesejáveis: desinteresse de muitos cidadãos em compreenderem e interpretarem as Estatísticas, e desta incapacidade resulta o facto, não de ?os números mentirem?, mas de se aceitarem como verdades ?mentiras? construídas por outros.
Tal como o indivíduo analfabeto precisa que outros leiam por ele, ficando totalmente à mercê de eventuais erros provocados por terceiros, também o iletrado numérico, ou estatístico, depende do modo como outros escolhem os dados que apresentam. Por comodidade ou dificuldade, corre o risco de se deixar enganar por uma má utilização, propositada ou não, dos indicadores estatísticos que devem ilustrar determinado fenómeno ou característica social. Tal dependência afasta-o, por isso, de um contacto com o mundo real e obriga-o a pensar pela cabeça de outros, ou a viver num mundo virtual criado por outros.
Claro está que as Estatísticas nem sempre são perfeitas. A realidade que nos rodeia tem uma complexidade crescente e, como tal, a exigência de a captar nas suas múltiplas facetas não é fácil. Contudo, muito se tem avançado nesta área, em especial no que diz respeito às Estatísticas Oficiais, fruto designadamente da evolução metodológica, científica e tecnológica.
As portas estão abertas. Hoje as Estatísticas têm mais garantias de qualidade e são bastante mais acessíveis que no passado: por exemplo, a Internet tornou possível uma estreita proximidade entre os dados e os seus utilizadores e muitas das Estatísticas Oficiais são já hoje gratuitas e exportáveis.
As Escolas têm um importante papel, porque é aí que tudo começa. Além do reforço do ensino da Estatística nos níveis básico e secundário, é preciso levá-lo até aos níveis mais avançados do ensino superior, em todas as áreas do saber. Já houve tempos em que se operava uma distinção clara, ao nível da formação superior, entre ?Letras? e ?Ciências?.

Hoje as fronteiras não são tão nítidas, embora persista o tom da separação marcada, talvez, pela disciplina da Matemática. Mas ao falar-se de Estatística não se está a falar de uma subárea da Matemática ou de um ramo científico.
Uma parte muito substancial da Literacia Estatística não exige conhecimentos de Matemática mais do que rudimentares. Avançar no conhecimento, qualquer que seja a área em causa, tendo sempre como princípio que há uma parte dos factos (os dados estatísticos e alguns conceitos básicos associados) que nos escapa é um erro enorme. Nada do que serve de base à criação de conhecimento sobre o mundo deve ser dispensado.

Os produtores de Estatísticas Oficiais têm também um papel decisivo, o qual passa por reforçar a sua interacção com os respectivos utilizadores e promover a correcta utilização dos dados. Compete-lhes, assim, por exemplo, apresentar de modo mais simples o que por vezes é complexo e disciplinarmente ?hermético?. Não é tarefa fácil, sabemo-lo. Mas nem sempre a simplicidade (de linguagem, por exemplo) é contrária ao rigor.
Este esforço de se colocar a compreensão das Estatísticas também do lado dos cidadãos, e não apenas do lado dos produtores ou dos peritos da área é essencial. E sabendo que todos os números têm uma história, uma identidade própria (como uma pessoa), importa contá-la com rigor mas também de forma acessível.

A metainformação é uma componente-chave para o entendimento dos dados estatísticos, onde está toda a raiz da confiança nos mesmos. Não é uma componente acessória dos factos estatísticos que apenas serve os mais curiosos e, como tal, o reforço da sua utilização alargada é igualmente muito relevante.
A par do aperfeiçoamento da comunicação, a promoção de acções de formação sobre a boa utilização de Estatísticas, junto das escolas, universidades, empresas, associações, organizações públicas, etc., é outra linha de actividade a aprofundar.
As Estatísticas sobre a Sociedade são parte integrante desta nova Era, são o novo Abecedário e a nova Tabuada do mundo moderno.
Alargar a melhor utilização da informação estatística de confiança sobre a Sociedade é essencial para a compreensão do mundo e para o fortalecimento de uma opinião informada.
Desfazer mitos, alargar as competências de compreensão das Estatísticas, reforçar a sua comunicação e simplificar a complexidade da informação são, entre outras, pistas a seguir.
Tudo em nome da liberdade de escolha e de pensamento.

 

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