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Entrevista
“INSPIREI-ME NA VIDA REAL PARA ESCREVER O PRIMEIRO ROMANCE” - 07-04-2013

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Article posté le 07-04-2013

A poesia tornou-o conhecido no universo literário guineense, mas, cumpriu a vocação de escritor em plenitude com a publicação no final do ano passado, em Lisboa, do  seu primeiro romance intitulado: “Finhane - O vagabundo apaixonado”. Inspirado no poema omónimo, o livro transpira histórias verídicas. Traz à luz do dia a problemática da delinquência juvenil, da escravatura moderna, perpetrada pelos grupos de mafiosos e traficantes que operam entre Europa, América do Sul e África. Chama-se Emílio Tavares Lima, nasceu há 39  anos, em Canchungo, região de Cacheu, na Guiné-Bissau.

POR LAY KOROBO, EM LISBOA

Foi no intervalo da azáfama de apresentação da obra em diferentes espaços do território português que marcámos encontro para o final da tarde. Na hora marcada, aparece sorridente na Biblioteca/Bar da “Chiado Editora”, em Lisboa, que dias antes realizou ali a cerimónia do lançamento da obra. Em entrevista exclusiva, este escritor, licenciado em Ciências da Comunicação e da Cultura, pela Universidade Lusófona de Lisboa, fala com grande entusiasmo da sua estreia em ficção.

Gazeta de Notícias (GN) – O seu primeiro romance tem um título curioso: “Finhane – O vagabundo apaixonado”. Qual é o seu significado?

Emílio Lima (EL) – É o nome do personagem principal da obra. “Finhane”, na etnia balanta significa “verdade”; e o “Vagadundo apaixonado” é o titulo do meu livro de poesia editado em 2010, que surgiu num contexto real. Ele existe. Portanto, de uma forma geral, o seu nome é a soma de: verdade, a tabanca acabou, e uma pessoa hiper-ativa.

GN – Transitou do campo de poesia para ficção, pretende demostrar, desde já, que é um escritor polivalente?

EL – Gosto de poesia, mantenho uma grande fidelidade a este género de literatura. Mas confesso que desde criança que admiro os escritores de ficção. Como é que conseguem pensar numa história longa, de forma coerente? Tive oportunidade de cruzar com gente experiente ligada à área que me incentivaram e apoiaram. E consegui escrever essa história agora editada em livro.

GN – Após o lançamento quais as críticas que recebeu dos leitores?

EL – Graças a Deus, até então, tenho recebido aplausos e boas críticas. Na qualidade de artista e criador, tive alguma insegurança com o lançamento da obra. Um facto que faz-me lembrar o grande pintor espanhol Pablo Picasso, que diz: “o défice de obras arte, são causadas pelo receio (do criador) ao julgamento do público”. Quer dizer, quando um autor expõe a sua obra, entrega-se ao público para ser julgado, como fiz agora no sentido de receber as críticas. O feed-back não só na Guiné-Bissau, como a nível mundial, foi muito boa. Até alguns escritores experientes com obras publicadas, louvaram o meu livro comentando que “este trabalho está à frente, uma vez que é a minha primeira escrita de ficção”. Mas, mais engraçado ainda para mim, modéstia parte, é bom ouvir elogios, mas a crítica é ainda melhor porque ajuda-me a crescer. Há nesse sentido os que me sugeriram algumas modificações no manuscrito, mas era assim, conforme foi editado que quis o livro. 

GN – Este livro aborda a questão de imigração...

EL – Fundamentalmente aborda a questão de imigração, não só no contexto de partida, como da chegada. O que motiva as pessoas a saírem dos seus países? Uns saem com objetivo de adequerir novos conhecimentos, formação académica; outros porque no país não encontram outra alternativa. No contexto da chegada, há uma realidade dura pela qual o Finhane tem passado, assim como outras personagens do livro. Escrevi este livro com alma e coração porque sou imigrante e conheço a referida realidade. Inspirei-me na vida real para escrever este meu primeiro romance.

GN – Portanto, há no fundo, um pouco da sua autobiografia...

EL – (Riso) É verdade. Na Guiné-Bissau trabalhava na Rádio Galáxia de Pingiquiti. Cheguei a Lisboa e no dia seguinte fui trabalhar na construção civil três meses, infelizmente, o patrão fugiu com o dinheiro. A Europa, como é evidente, não é mar de rosas como vemos na televisão e nas novelas. São ilusões ópticas que fazem sonhar muita gente em África. Mas na realidade, se conhecessem a vida pura e dura que se vive cá no velho continente, nunca gastariam o seu dinheiro ou se aventuravam para lá.

GN – Finhane é o retrato de um imigrante falhado e frustrado?

EL -  (Riso) Talvez os dois termos sejam um bocado fortes. Finhane teve algumas visicetudes, mas apesar de tudo o que lhe tenha acontecido, acabou por concretizar seu sonho. Não dramatizei tanto a sua história e concluí-a de forma inesperada. Acho que é a parte interessante desta obra.

GN – Fez pesquisa antes de iniciar a escrita do livro?

EL – Sim, fiz. Comecei por redigir duas páginas. Já tinha imaginado como iria terminar a história, mas como devia concretamente, descrever o início, passando pelo meio e chegar ao fim de forma coerente? Tive de ler uma das obras do escritor latino-americano Mário Vargas Lliosa – prémio Nobel 2010 – na qual aprendi uma lição importante de como um jovem (ou novo) escritor deve escrever uma narrativa interessante para o público. Ou, seja, com profundeza e rigor literário. Pessoalmente, gostei do livro, espero corresponder as expectativas dos leitores.

GN – Escolheu a cidade de Lisboa como cenário do seu primeiro romance, onde hoje em dia, é visível os imigrantes a viverem na rua. Este fenómeno é derivado à crise económica, austeridade...

EL – Respondendo a esta questão não só como escritor, mas também, como cidadão estrangeiro residente na terra lusa, penso que há falhanço na política de acolhimento implementada por Portugal. Talvés este país não estava preparada para receber o fluxo de imigrantes. Em comparação com outros países europeus como a Holanda ou a Suíça, Portugal tem a particularidade de ter  a comunidade estrangeira acantonada nos subúrbios, em barracas.  Quem vive cá, concretamente na região de Lisboa, já viu ou ouviu falar dos bairros de Prior Velho, Quinta do Mocho, Santa Filomena, Cova da Moura. Qual foi o conceito ou solução das autoridades para os casos dessas populações? É tira-los das barracas e realojá-los em bairros sociais. Não são integrados junto à população portuguesa. Porém, este acantonamente cria um espírito de separação, que evidentemente gera problemas. Um ou outro cidadão estrangeiro consegue sair desse meio por causa da sua formação ou de outro motivo.

GN – Os chamados bairros problemáticos, conotados à delinquência, tráfico, violência, etc...

EL – Exactamente. Esta problemática afeta principalmente a camada juvenil e filhos de imigrantes. Falo com conhecimento de  causa, porque os dados oficiais que obtive demostram que a maioria destes  jovens encontram-se nas prisões por prática de um ou outro crime que referiu. Eles nasceram em Portugal, são denominados “jovens de terceira geração”, paradoxalmente, não se sentem ligados ao país de origem dos seus pais, mas também não se identificam com a cidadania portuguesa, a que normalmente pertencem. Automaticamente perdem o norte e sul.

GN – Quer dizer ficam desorientados?

EL – Sim. Tornam-se rebeldes, optam pelo abandono escolar; na maior parte dos casos rejeitam o trabalho de construção civil que é o sector que absorve a mão de obra imigrante. E para se afirmarem socialmente, recorrem à delinquência juvenil com o objetivo de possuir bens materiais. É um fenómeno triste, porque nenhum pai gosta de ver o seu filho enveredar por tal caminho. Creio que independentemente da sua formação, da sua capacidade de educação, um progenitor tem sempre um sonho de no futuro ver o seu filho triunfar na vida. O meu romance retrata toda essas situações.

GN – O fluxo migratório inverteu-se em Portugal, atualmente regista-se mais saída do que entrada neste país. Face à esta situação que mensagem gostaria de deixar à juventude guineense que pretenda emigrar para Portugal?

EL – Hoje em dia, apesar de dificuldades, a Guiné-Bissau tem  condições para alguma formação. Portanto, aconselho a todos os jovens com ou sem grandes capacidades financeiras, a não desistirem nunca da formação local e devem acreditar que tudo é possível a partir dalí. Os dados indicam que em termos populacionais somos cerca de um milhão e meio de habitantes; o nosso país é rico em recursos naturais, que me leva a recusar a teoria de que ele é pobre. A camada juvenil constitui a maioria da população guineense, porém, esta força motriz deve enveredar em todos os sectores de atividades: académica, social e política. Diria mais fundamentalmente na cena política, porque se não houver nova geração de pessoas formadas, com capacidade de fazer política correctamente, automaticamente deixaremos os lugares aos incapazes e as decisões políticas sairão sempre erradas. 

GN – Sinais de ciclo vicioso acente na corrupção?

EL – Sim. Isto vem também demostrado, de forma subtil, no último capítulo de meu romance. É uma alerta no sentido de criar uma blindagem para não contaminar a nossa geração. Lembro-me, a titulo de exemplo, quando trabalhava na Rádio Pingiquiti, fui fazer a cobertura de um trabalho do Conselho Nacional de Juventude, tive informação de que um grupo espanhol (vindo da Canatalunha) pretendia adquirir terreno para a  construção de um Hospital algures em Bissau, houve alguém na Câmara Municipal que terá exigido uma contra-partida. É inaceitável e chocante uma situação desta para quem pretende oferecer-nos algo bom. Também para o nosso país e a nossa população a quem seria destinado.       

 

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